Reportagem: Planejamento de Obras – É assim que se faz

Revista Construção Mercado – n. 12 – Julho 2002

Por: Mariuza Rodrigues

O planejamento de obras, por incrível que pareça, ainda é uma incógnita para muitas construtoras brasileiras.

Empresas mais estruturadas até conseguiram aperfeiçoar sistemas de planejamento às suas necessidades e perfil. Mas existe ainda um universo que não descobriu os meandros do planejamento como um meio de melhorar a produtividade e reduzir perdas.

Muitas empresas temem o excesso de burocracia e acreditam que os instrumentos de planejamento não atendem ao seu porte ou método de trabalho.

Essas empresas desconhecem que hoje existem desde métodos mais complexos aos mais simplificados. No último caso, essas ferramentas conseguem atender a empresas de pequeno e médio porte, com resultados positivos em matéria de prazos e custos. “Grande parte dos diagnósticos da construção civil, realizados até hoje, indicam que muitos problemas do setor – baixa produtividade, incidência de perdas, ocorrência de acidentes – têm entre as principais causas a falta de planejamento”, diz Carlos Torres Formoso, do Norie (Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Quem procura informações sobre estratégias de planejamento pode recorrer a livros, sites, softwares e consultorias que tentam desvendar as várias faces do assunto. Entre eles, podemos citar o livro “Introdução ao Planejamento e Controle de Custos na Construção Civil” (Editora Pini), do engenheiro Pedrinho Goldman, que traça um roteiro básico dessa atividade. Uma das principais características do planejamento, diz o autor, é o elo com os demais departamentos da empresa – arquitetura, financeiro e contábil. Muitas empresas chegam a criar um departamento só para cuidar dessa atividade.

“No entanto, quando começam a crescer, torna-se necessário a centralização de tantos dados e informações”, diz Goldman. Segundo o autor, essa área detém ainda uma importante tarefa junto à engenharia.

“O planejamento responde em conjunto pela escolha dos materiais, apropriação dos serviços e adoção das soluções adotadas no dia-a-dia da obra.”

As grandes dúvidas na cabeça dos construtores são: como materializar esse intrincado quebra-cabeças?

Quantas planilhas serão empregadas? Qual a periodicidade ideal de controle? É preciso contratar um profissional especificamente para isso? O planejamento realmente traz lucro?

Segundo os especialistas, planejamento está vinculado a outros pré-requisitos.

“Está vinculado a processos de qualidade”, diz o diretor da NBSTech, Salvador Benevides. “Sem dúvida, a certificação dos processos representa um grande salto para a melhoria dos meios de controle e simplifica o planejamento.”

Primeiros passos

No livro “Planejar para Construir” (Editora Pini), o engenheiro Remo Cimino define as etapas básicas dessa atividade como: organização dos eventos (planejamento); métodos de execução; serviços de apoio; canteiro de obra; equipes de trabalho; organização; acampamento (se for o caso) e suprimentos. Por sua vez, essas etapas são ainda detalhadas e servem como parâmetro para a formulação das planilhas. Um roteiro inicial, segundo Cimino, pode ser o seguinte: análise do projeto; período em que deve ser executado; análise de eventos mais simples; considerações sobre eventos complexos; enfoque dos eventos complexos; organização dos eventos; análise dos eventos complexos; níveis de produção; interdependência entre serviços, equipamentos e mão-de-obra; serviços de apoio; canteiro de obra; equipe; acampamento; suprimento (recursos materiais); liberação para execução; controles e revisões. Mas o engenheiro alerta que o fundamental nessa etapa é a análise dos pormenorese as diversas interferências que possam criar problemas na obra.

Uma vez levantados todos esses dados, o passo seguinte é a organização de tais informações numa linha do tempo. Para isso utilizam-se alguns instrumentos como cronograma de barras, sistema Pert-CPM ou ambos ao mesmo tempo. Também nessa etapa deve ser realizada a análise dos principais problemas técnicos dos diversos momentos, com a determinação dos níveis de produção e definição dos sistemas construtivos a serem empregados.

Planejamento de barras e sistema Pert CPM

O planejamento de barras é um sistema simplificado, ilustrado pelo gráfico de Gantt, que visualiza o avanço das atividades seja por mês, quinzena, semana ou dia. As vantagens, segundo Remo Cimino, são a facilidade e rapidez na execução, além da clareza na apresentação das atividades.

Mas esse modelo não determina todas as relações de interferência entre as diversas etapas nem aponta os caminhos críticos

Mais complexo, o sistema Pert CPM é um modelo de representação fundamentado na seqüência e dependência de atividades, o que aponta o caminho crítico da duração dos eventos. Para o engenheiro Cimino, este é um sistema mais completo, que permite uma série de recursos ao gerenciamento, com uma melhor visualização dos processos e previsão das atividades em tempo mais exato. Também, segundo o engenheiro, facilita o acompanhamento das atividades e permite a caracterização dos diversos caminhos subcríticos.

Há quem esteja buscando a simplificação ao máximo dos ferramentais empregados nessa trajetória, seja por falta de recursos para aquisição de equipamentos ou mesmo para investimento em treinamento. Quem vem encampando esse conceito é Carlos Torres Formoso, à frente de um trabalho realizado no Norie. “Muitas pessoas confundem planejamento com a aplicação de uma técnica de planejamento ou a geração de um plano”, diz Formoso, que não vê a necessidade de ferramentas muito complexas.

“Quanto mais simples, melhor”, diz. O professor vem liderando estudos sobre esse tema, ao lado de outros estudiosos, como Mauricio Moreira Bernardes. Em pesquisa realizada pelo grupo em 12 empresas gaúchas foram identificados os principais problemas nessa área.

“Os avanços detectados em algumas construtoras não são suficientes para melhorar o desempenho global da produção”, avalia Mauricio Moreira. A pesquisa é a base para um conjunto de ações, sugeridas pelo Norie, que podem melhorar os sistemas de planejamento aplicados. “O fundamental, no entanto, é a mudança de postura dos profissionais frente ao problema”, diz Mauricio Moreira. O método proposto por Formoso e seus colegas do Norie emprega um modelo que traduz ao máximo os sistemas informais empregados por algumas construtoras. Por exemplo, para planejamento de curto prazo, é mais interessante uma ferramenta que permita maior transparência possível nos processos. “Criase uma janela de confiabilidade fundamental para estabilizar a produção”, diz Formoso. Nela é fundamental a avaliação do percentual de pacotes concluídos (PPC), com a identificação das falhas de planejamento.

Outra ferramenta é o plano de médio prazo que permite a identificação e remoção das restrições. Um dos cuidados a serem tomados é durante a introdução de novas tecnologias, que exige o aperfeiçoamento do projeto e também do planejamento. “Há tecnologias que tendem a facilitar o planejamento”, diz o professor.

Uma das empresas que tem empregado o modelo, a S.B. Mendes, de Campinas, viu melhorar a sua performance com o sistema do Norie. “É simples e fácil de utilizar”, diz Carlos André, diretor da construtora.

“Todo o sistema se concentra em um modelo de planilha simplificada, que pode ser atualizada inclusive pelo mestre-de-obras.”

O construtor lembra que há três anos viu-se em meio a um processo de qualidade, cujo investimento era alto, mas faltava um sistema de controle eficaz. “Com um só engenheiro de obra, era difícil acompanhartodas as informações”, diz.

O ponto inicial do processo, destaca Formoso, é sempre o planejamentode curto prazo, “nível em que se começa a mudar a culturada empresa”. O passo seguinte é o planejamento de médio prazo. O importante é não perder de vista o cumprimentodo prazo total da obra, a ser monitorado pela planilha de longo prazo. O processo exige disciplina,com a realização de reuniões periódicas.

Segundo ciclo

Para o consultor Aldo Dórea Mattos, o principal problema de planejamento das construtoras está na falta de atualização dos cronogramas.

“Se um dos objetivos do planejamento é minimizar as incertezas da obra, é preciso um mecanismo de apropriação de dados de campo que permitam a avaliação e replanejamento das atividades”, diz. A seu ver, o ciclo PDCA

PERSONAGEM: Aldo Dórea Mattos
Cultura empresarial

Consultor e palestrante do curso Gerenciamento de Obras da Pini diz que o alto escalão não dá a devida importância ao planejamento

– Por que só agora as construtoras acordaram para a necessidade de planejar as obras?

Eu costumo contar a seguinte história: decorridos 25% do prazo de uma obra, o engenheiro responsável informa que “houve atrasos de projetos, mas que a obra vai bem”. Decorridos 50% do prazo, ele diz que “houve atrasos de fornecedores, mas que a obra continua bem”. Quando chega nos 75% ele confessa que “algo não vai a contento e é preciso empregar mais recursos”. Mais tarde ele procura os superiores e diz que “o prazo não será cumprido sem um enorme esforço”. No fim da obra, ele bate no peito, constata o furo do orçamento e pergunta: “Eu não disse?”.

Atualmente, a equação se dá na ordem inversa: o que sobra sob a forma de lucro é a diferença entre o preço de venda ditado pelo mercado e o custo. Quanto menor o custo, maior o lucro, daí a importância de um planejamento eficiente.

– Qual a maior deficiência das construtoras em planejamento?
A deficiência se manifesta em graus variados. Há empresas que planejam mal, outras que planejam bem, mas não controlam.

O produto final serve para “fazer figura” frente ao cliente. São planilhas, gráficos e cronogramas que prescindem de análise apurada e muitas vezes nem são aprovados por quem vai fazer a obra, ou sequer submetidos ao crivo da equipe de produção. Planejamento serve para ajudar, não para representar um ônus. Implantar um sistema de planejamento e controle requer a remoção de barreiras culturais?
Planejamento tem que ser cobrado pela alta administração da empresa como uma ferramenta indispensável. Reuniões eficazes de acompanhamento começam doutrinando o pessoal de campo, e a geração de índices permite premiar as melhores equipes e detectar os focos de desvio.

5 respostas para Reportagem: Planejamento de Obras – É assim que se faz

  1. MEUS PARABENS…
    OTIMA EXPLICAÇÃO, COM ISSO O CUSTO BENEFICIO HOMEM/MAQUINA/HORA IRÁ MELHORAR O FLUXO DE CAIXA, COM CERTEZA.
    ISTO POSTO.
    NADA MAIS.
    ATENCIOSAMENTE
    ASSINA – REGINALDO OTAVIO PORTES
    RUA 3100/270/410/BALNEÁRIO CAMBORIU
    CENTRO
    47-9972-7531

  2. Luiz Junqueira disse:

    Grato reginaldo.

    abraços e boas festas

  3. Adorei o Livro de Planejamento do Dr Aldo Dórea Matos.
    Muito claro e objetivo.
    Vem ao encontro de tudo que aplicamos em nossa empresa e foi ótimo para otimizarmos alguns procedimentos.

    Abraços;
    Débora Forattini

  4. Ricardo Tatagiba disse:

    Gostaria de parabenizar pelas explicações, é fato que é necessário realizar um planejamento eficaz nas empresas, infelizmente como o próprio texto insinua, é necessário uma mudança cultural, e não existe coisa mais difícil de fazer que mudar culturas!

    Abs

  5. Fabio Junio disse:

    Luiz, Boa Noite. Atualmente estou desenvolvendo o meu trabalho de conclusão de curso (Graduação), voltado em planejamento de obra e gerenciamento. Estive buscando na internet informações para alimentação da minha tese, onde encontrei o vosso site que me serviu de grande ajuda, fornecendo materiais de qualidades voltado ao assunto. E gostaria de lhe agradecer pelo excelente material disponibilizado. – Fábio Junio Ambrosio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: